quarta-feira, 30 de maio de 2012

ONDE ME ESCONDO


Vem me ver onde me escondo:
Me escondo atrás de palavras
E uma sílaba me basta
Pra enganar quem me procura
Vem me achar onde me oculto,
No fundo da claridade
Onde ninguém jamais
pensaria me encontrar


Vai me olhar lá no tumulto
Vai me ver na multidão
Vai perguntar onde eu moro
Você nunca vai saber onde me arranjo, onde me prendo
Onde me escoro, onde me rendo
Onde me mostro
Em qual quarto eu fico nu.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Zé Rodrix - 1947/2009

Tudo começou em 1972, ano desta foto. Mas em 22 de maio passado completamos nosso terceiro ano sem o amigo e parceiro Zé Rodrix. A saudade é muita mas nossa bandeira continua de pé...
...e Super-Zé também, em algum tempo, em algum lugar.

VIDA DE ARTISTA - VAI DE VAN !


            Alto verão. A banda de dez integrantes espremida numa van de doze lugares – o equipamento junto! – paga seus pecados numa viagem de trezentos quilômetros por uma estrada que parece ter sido traçada por uma surucucu-bico-de-jaca no encalço do seu guaxinim preferido. O ar condicionado da velha Besta não dá conta do recado. No banco da frente, ao lado do motorista, o empresário torce o pescoço para trás e tenta dar uma animada:
- Aí, pessoal, estamos quase lá...
            O motorista, desavisado, consulta o GPS:
- Ih, que quase lá, seu Romildo... Não chegamos nem na metade.
            Romildo levanta os olhos pro céu, em desespero. Maldita a hora em que – pra economizar quatrocentos contos – resolveu alugar a van do Everaldo, em vez do velho, mas confiável, confortável e outros áveis, ônibus leito de costume. Além de ter provavelmente uma das primeiras Bestas chegadas ao Brasil, o Everaldo era ele mesmo uma besta. Não fosse o GPS eles já teriam chegado ao Paraguai. Bem que o Cordélio Graça, magérrimo e barbudo guitarrista, ao saber que a banda iria de van, profetizara do alto dos seus quase dois metros de altura, com aquela impossível voz fininha:
- Van é uma invenção do Diabo. E o Diabo mora na Coréia.
            Pra piorar a parada, a intervenção do Everaldo tirara Toninho Franciosa, o batera, do estado semi-comatoso em que ele se encontrava desde os primeiros dez quilômetros. Silencio, em se tratando do Toninho, era péssimo sinal, porque queria dizer que a qualquer momento ele ia perder o pino e jogar aleatóriamente a granada que sempre trazia guardada na boca:
- Pois é...
            “Caraca” – pensou Romildo – “o Toninho acordou”. Lá vinha. E veio.
- Pois é! Pois é! A gente aqui encarando essa droga de van e o canário deve estar lá voando... Lá nos ares, voando! Foi de avião, não foi? Não foi? Fala aí, Romildo, não foi?
            Romildo suspirou. Era melhor dizer a verdade agora:
-Foi, Toninho, foi.
            Toninho soltou um urro de leão ferido. Clamou como Moisés, braços aos céus:
- Ele tinha dito que ia de carro pra baratear a produção! E aí a gente topou ir por meia paga... Pode isso? – olhou em volta, buscando o apoio do resto da banda – pode?!
            Betão percussionista, figura por si só impressionante não só pela aparência física de lutador de MMA como também pela serenidade zen que o levava à liderança inconteste e incontestada daquele grupo, decidiu que era hora de falar, antes que o pino do Toninho saísse pela janela da van e fosse esmagado por uma carreta, tornando a situação incontornável:
- Pode, Toninho. Cala a boca, Toninho. Tu acha que ele ia falar pra gente que ia de avião? Tu é otário, cara? Encosta aí e dorme, cacete.
            Betão era o único bombeiro que o incêndio de Toninho respeitava, não por receio, mas por uma parceria de mais de dez anos. Aonde ia a corda, ia a caçamba. Restou a Toninho um último gemido:
- E ainda por cima deve ter levado a mulher junto.
            Aí quem acordou foi a Denise, vocalista e galho antigo do canário, mais conhecida como Denise Boca Divina, pelo fato de que daquela boca tão bela à la Scarlet Johansson costumavam sair palavras de fazer um marinheiro tapar os ouvidos. A cantora, já no final dos trinta, mas ainda longe de se jogar fora, tinha oito anos de banda e seis de conjuminação poético-erótica com Carlos Távora, o canário em questão, criatura ele de sucesso dividido em altos e baixos, boiando pelo mar da chamada MPB de acordo com o rumo em que a corrente o levasse, sendo até um marinheiro bem sucedido nessa navegação através de vinte e poucos anos de carreira, que por milagres diversos era sempre salva do naufrágio final.
- Aquela mala vai atrás de onde o boi for. Qual é a novidade? Se ela vai numa * de avião ou numa * de carro, tanto faz. O negócio dela é...
-... O mesmo que o teu? – gargalhou Diego, gozador de profissão e tecladista nas horas vagas. Diego perdia muitos amigos por uma piada. Boca Divina baixou o barraco:
- Se toca aí, seu *! Que tal você não *...
            Betão decidiu de novo pela intervenção:
-Olha aí, rapaziada, vamos segurar a onda. Tem show hoje.
            Olhou em volta, com autoridade:
-Alguém tem coisa melhor pra fazer?
- Por paga dupla, não. - claro que era o Serginho, também vocalista de apoio. Serginho só pensava em grana e nas melhores- ou piores - ocasiões de solicitá-la.
            Nessas horas Romildo entrava em Alfa e fazia de conta que nada demais estava acontecendo. Empresário esperto e veterano, ele sabia até onde podia puxar a corda sem que ela rebentasse. Estava na hora de soltar sua Bomba de Comiseração:
- O Távora foi de teco-teco, gente. O contratante mandou um pra buscá-lo e ele não pôde dizer não. Era pegar ou largar.
            Um “ohhhhh!” encheu o ar aquecido da van. Távora era conhecido por seu pavor a qualquer aparelho voador com menos de dois motores. Dramático, ele uma vez se ajoelhara diante da banda e jurara jamais entrar num aparato monomotor, fosse ele um kart ou um helicóptero:
- Prefiro comer quiabo!
            Quiabo, claro, era o outro pólo de horror do nosso humilde canário.
            Lá de trás da van ouviu-se a voz fanhosa do Humberto, sax/ flautista, que jurava ter conseguido o fanho exato da voz para melhor adaptar-se à marca de palhetas brasileiras que o patrocinavam desde sempre:
- Minntchira! Naum acredinto ninso!
            O protesto foi imediatamente respondido pelo Nelson Bozó, baixista, fã, adepto e dedicado de corpo e alma à carreira de Carlos Távora. Falar mal do Távora na presença de Bozó provocava imediatamente uma reação irada e sentida:
- Tu não acredita porque tu nunca viajou nessas porcarias! O cara tem que se preservar! Tem que se preservar pro público!
            Nelson pulou uma fileira suportando os protestos de todos e sacudiu Romildo lá na frente:
- Liga pra ele! Liga aí! Vê se ele chegou bem!
            Romildo reuniu toda a paciência acumulada em anos de estrada e respondeu:
- Sabe Deus!
            Além de Deus, ele, Romildo, sabia que o Távora e a mulher estavam desde a véspera na cidade de destino depois de uma confortabilíssima viagem em jato de carreira. A história do teco-teco era outra das invenções do Romildo para aplacar a banda naquela viagem de meia-paga. Ele já combinara isso pelo celular com o Távora, antes mesmo da saída da van.
- Bom, de qualquer jeito, vou ligar. Não sei nem se eles vão chegar antes da gente...
- Ah, Romildo, fala sério! – o Toninho, de volta... – nem que fosse aquele teco-teco que leva faixa de propaganda na praia.
            De repente, do nada, o motor da Besta tossiu, gemendo na rampa. Everaldo reduziu a marcha, acelerou, acelerou, mas a tosse do velho guerreiro Diesel só piorava.
- ô Everaldo, que é isso aí, cara?
- Ué, seu Romildo, se eu soubesse...
            Foi a conta de desviar a van pro acostamento e passar uma carreta buzinando, quase batendo na Besta que mal conseguiu sair da estrada a tempo. O Diesel arfou mais uma vez e desfaleceu como um tuberculoso de opereta. Protestos. Ranger de dentes. Caos. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Já ajoelhado no banco, Romildo virou-se pra trás:
- Muita calma nessa hora! Mantenham seus lugares!
            Mas a banda já abria as portas e escapava pra fora da Besta fervente, preferindo o sol a pino exterior que um ar condicionado que não condicionava nada:
- Aí, pessoal – piou o Diego-piada – Todo mundo soprando um na cara do outro que fica melhor que lá dentro.
- Eu falei, eu falei ! –soava mais fininha que nunca a voz do Cordélio – Van é uma invenção do demônio!
            Everaldo voltou da investigação mecânica com a mesma cara que tinha ido:
- É, seu Romildo, não sei que é isso não... Vou ligar pro chefe.
- Quanto falta, Everaldo? Pelo menos isso você deve saber, né não?
- Aí uns duzentos, mais ou menos...
            Romildo distanciou-se do resto do pessoal e ligou pro celular do Carlos:
- Carlinhos? E aí, já está no hotel? Como é que é?

            Romildo foi mais pra longe pro pessoal da banda não perceber que ele subitamente perdera a cor.
- Cancelado?! Como cancelado?... morreu quem?
            Percebeu que estava falando muito alto e tapou o celular com a mão esquerda, como se estivesse num orelhão...
- A sogra do prefeito! Mas o que é que o aniversário da cidade tem a ver com a velha? Ela tinha que morrer logo hoje?
            Caramba, Romildo, um pouco de respeito! Dona Pinguinha, assim apelidada pelo religioso costume de tomar umas antes e depois da missa diária e já bem entrada nos noventa, sofrera um enfarto fulminante ao ganhar um selinho inocente do nosso já tocadaço astro, que saltara do avião direto para os braços da velhinha, sua ardorosa fã desde o início da longa carreira do figura, que – embalado por três quartos do indispensável Johnnie Walker Black que o acompanhava nas aventuras aéreas – achara por bem agraciar a doce anciã com o sabor sensual dos seus lábios, mesmo que por um momento. Sem o treino aeróbico adequado para enfrentar tamanha emoção, o aparelho de dona Pinguinha, a exemplo do Diesel da Besta Velha, simplesmente arfara uma vez e deixara de funcionar, com a diferença de que o sorriso angelicalmente safado que dona Pinguinha levaria para o túmulo não condizia com a grade enferrujada e os faróizinhos desanimados da também extinta máquina asiática, que provara assim ser muito menos resistente que a brasileira, que durara noventa e cacos contra os pouco mais de vinte de sua concorrente.
- Ô, Carlinhos, diz uma coisa: como é que o prefeito está inconsolável se quando ele nos contratou ele falou que só estava chamando a gente porque a bebum da sogra dele tinha exigido isso senão ela contava pra filha...você sabe o quê. Mas escuta, cara, como é que você entra numa de dar um beijo na boca da velha?
            Romildo, meu caro, você tem mais de trinta anos e sabe-se lá quantos quilômetros de estrada. Você sabe como é perigosa aquela escada de avião, que se inclina mais e mais à medida que as garrafas do Black vão-se esvaziando. Nosso canário, Romildo, foi traído pela insegurança do equipamento, que transformou o que seria um cumprimento educado e cortês à santa senhora que o esperava sorridente no final da escadaria íngreme numa cena de “Harold and Maude”, aquele filme dos anos 70... “Ensina-me a Viver”, não é isso?... em que o adolescente Bud Cort torna-se amante da septuagenária Ruth Gordon, para enlevo de ambos.
- E a Bebel nem te segurou? caraca, pra que é que serve uma mulher que não te segura?
            Não vamos entrar nos detalhes escabrosos desse telefonema, já que a Bebel estava como de costume com o ouvido colado no celular de Carlinhos e respondeu à altura, dizendo a Romildo o que é que ele devia de segurar àquela altura dos acontecimentos. Melhor que voltemos ao exterior da van, onde Denise Boca-Divina colava por sua vez a orelha no celular de Romildo a tempo de ouvir as últimas palavras de Bebel. Denise afastou-se a uma distância conveniente e começou a sinalizar a mímica que só ela, Carlinhos e Romildo entendiam e praticavam muitas vezes pelas costas de Bebel. Para facilitar, e como nosso texto não é ao vivo e a cores, tentaremos fazer uma tradução fiel:
DENISE – Você-vai-deixar –essa-(intraduzível)-falar-com-você-desse-jeito-?
ROMILDO(a custo conseguindo equilibrar o celular entre o ombro e a orelha esquerda) – Fica-fria-é-a-mulher-do-seu-patrão-!
DENISE- Diz-pra-ela-o-que-é-que-o-seu-patrão-curte-depois-do-show-quando-ela-não-está...
ROMILDO – Dá-pra-você-calar-a-boca-?
DENISE- Mas-eu-não-estou-falando-nada-ô-babaca-só-estou-gesticulando-ah-ah-ah-!
            Foi bem nessa hora que –vendo a van em dificuldades e aplicando ao vivo seu aprendizado religioso de solidariedade - que o ônibus do Sacré-Coeur-de-Marie, com seis freiras e quase trinta pré-adolescentes a bordo, diminuiu a marcha, entrou no acostamento e – com o suspiro dos seus eficientes freios de ar comprimido – parou para prestar socorro à nossa querida banda.
Em meio à poeira levantada pela freada do ônibus no acostamento, nossos amigos assistem, incrédulos, a figura antes imaculadamente branca e negra – agora também com tons marrons – de irmã Maria (muito a propósito) do Socorro emergir  do caos como uma santa levitada. Denise Boca Divina tem uma epifania imediata e cai de joelhos diante da freira:
- Caraca! Uma santa!
- Que é isso, menina! Levanta daí! – a irmã, uma toupeira de míope, mas cheia de modernidade, ergue Denise enquanto dirige a ela um olhar desconfiado:
 – Você fumou o quê?
            Diego rompe numa gargalhada incontida:
- Ela não fuma não, dona freira, ela é assim mesmo de nascença!
- Cala essa boca, Diego! – interrompe Romildo – Desculpe, irmã...
- ...Maria do Socorro.
- Estamos aqui numa situação catastrófica...
            Romildo, só mesmo da sua cabeça poderia sair essa ideia: pegar uma carona até Guacapitanga , convencer o prefeito a voltar atrás no cancelamento e agraciar a cidade com mais uma fabulosa exibição do inimitável Carlinhos Távora, agora em homenagem à saudosa memória de D. Pinguinha, quer dizer, dona Beatriz Alvarenga, a fã número 1! E visto que pra você, Romildo, ex- entregador de pizza, servente do INSS e camelô (isso tudo, claro, fica entre nós!) o impossível é apenas mais uma polissilábica paroxítona, o ônibus do Sacré-Coeur ruma agora para Guacapitanga, fazendo um pequeno desvio de cento e cinquenta quilômetros do destino original, desvio esse concedido em troca de uma jam session a bordo com a inclusão da popular  “Dominique”, sucesso mundial em 1963 da freira belga Soeur Sourire, como lembrou a míope, idosa, porém extremamente lúcida irmã Socorro, tão lúcida ela que lembrava da letra no original francês, aprendido e apreendido rapidamente por  Boca Divina . O que não impediu a banda de tocar também “Sympathy For the Devil” dos Stones num fantástico arranjo acústico feito na hora e conforme as possibilidades instrumentais à mão.
            Enquanto a banda, as freiras e a garotada se divertiam à vera, você, Romildo, prosseguia com seu plano: trancado no banheiro do sacro ônibus ligou para o celular do prefeito:
- Doutor Silas, é o Romildo Braga, empresário do Carlinhos Távora... Antes de qualquer coisa, meus sentimentos...
- Sentimentos do quê, seu Romildo... – a voz do doutor Silas soava um pouco embargada, no meio de uma zoeira de gente. (Um bar, Romildo? O prefeito estava tomando umas?) – a velha já foi tarde! Aquilo era uma onça enjaulada, seu Romildo, uma onça!  Ela só sossegava quando ouvia os discos do seu Carlinhos!
            Às vezes a gente não acredita nas oportunidades que a vida nos proporciona. Mas Romildo, não. Romildo era um crente, um oportunista, um otimista que acreditava nos atalhos, nas veredas, nas entradas ocultas, nas réstias luminosas que apareciam por baixo de portas esquecidas. Entre ouvir o desabafo do prefeito e convencê-lo de que o cancelamento seria um atentado à memória da odiada sogra que dona Verbena, primeira dama do município, encararia como grave desfeita de corpo presente foi coisa de poucos minutos. E em menos minutos ainda, doutor Silas voltava com a resposta:
- Ô seu Romildo, falei com a patroa. O senhor é porreta, seu Romildo! Foi como o senhor disse: uma homenagem à memória da bagaça véia! Não acredito, seu Romildo! A patroa até chorou no telefone! Aquilo não chora nem em enterro de anjinho!
            Naquela noite Guacapitanga parou, o que não era muito difícil visto que a cidade não chegava aos vinte mil habitantes... Mas parou com alma. Carlos Távora fez o show da sua vida, apoiado por uma banda renovada pela agradável tarde musical com as freiras e os pré-adôs. O público foi ao delírio, embalado não só pelo espetáculo impecável, mas também pelas emocionadas palavras do doutor Silas na abertura do show, por sua vez emolduradas por uma tremenda queima de fogos que fizeram a alma de Dona Pinguinha subir com mais força ainda ao Céu das velhinhas pinguças. Doutor Silas foi à forra da sogra ali mesmo, garantindo uma reeleição precoce.
            O voo de Carlinhos partiria no dia seguinte de Pedra Grande, a metrópole mais próxima, para onde o canário sairia depois do almoço. Mas às nove da manhã, ele foi acordado por enérgicas batidas na porta do quarto. Ainda estremunhado pela farra que varara a madrugada e com as costas doendo por força dos vigorosos tapas de aprovação que o doutor Silas não cansara de pregar em suas costelas noite adentro, Távora abriu uma fresta da porta. Surpresa: a banda toda estava ali fora. E antes que Carlinhos pudesse pensar, como normalmente pensaria, que se tratava de uma homenagem a ele pelo grande show da véspera, o mal humorado Toninho Franciosa falou:
- Ou nós no voo...
            E Beto Percussionista rosnou, sério como nunca:
- Ou você na van...
            E da boca divina de Denise ele ouviu o inesperado restante do ultimato:
- Ou arranja outra banda.
            Romildo, você pode até ser um pouco doido, mas não rasga dinheiro. De Pedra Grande pra São Paulo de avião é um bom pedaço de céu, fora o excesso de peso do equipamento. E essa banda, Carlinhos, não é de se jogar fora. Talvez seja a última banda decente que você vai conseguir  para acompanhar o assim  honroso e digno final de sua longa carreira. Então, olhe bem para a velha Besta do Everaldo, ressuscitada pelas mágicas mãos de um mecânico de estrada, estacionada ali bem em frente ao hotel e ouça o conselho do seu empresário de tantos anos:
- Vai de van, Carlinhos. Vai de van.
            O único ruído que se ouviu naquele quarto depois das sábias palavras de Romildo foi o de duas passagens de avião sendo rasgadas.



Minha coluna "Vida de Artista" sai todo mês na revista BackStage

quarta-feira, 16 de maio de 2012

SÁ & GUARABYRA - AGENDA 2012


31 de maio - SÁ - participação no show de Lula Ribeiro - Capim Limão - BH - MG

9 de junho - SÁ & GUARABYRA e banda - ITAPINA, ES


19 de junho - SÁ & GUARABYRA - VOLTA REDONDA, RJ

22 de junho-SÁ & GUARABYRA e banda - Minas Tenis Clube - BH - MG

13 de julho -SÁ & GUARABYRA - RECIFE - PE

25 de julho -SÁ & GUARABYRA e banda - PIACATUBA, MG

29 de julho -SÁ & GUARABYRA e banda - BRAGANÇA PAULISTA, SP

4 de agosto -SÁ & GUARABYRA e banda - EXTREMA, MG

24 de agosto-SÁ & GUARABYRA - ITAPETININGA, SP

25 de agosto-SÁ & GUARABYRA - CAMPINAS, SP

26 de agosto-SÁ & GUARABYRA - SÃO PAULO, SP

28 de setembro-SÁ & GUARABYRA - SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP

29 de setembro-SÁ & GUARABYRA - SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP

26 de outubro - SÁ & GUARABYRA - PIRACICABA, SP

27 de outubro - SÁ & GUARABYRA - SOROCABA, SP

Eu, Crosby, Stills & Nash...




A regra é clara: todo tietado tem seu dia de tietante... fui assistir ao  show de meus ídolos Crosby, Stills & Nash no Chevrolet Hall em BH e depois do espetáculo eles manifestaram a vontade de me conhecer... eh,eh,eh, brincadeirinha... Meu amigo Gegê Lara, que trouxe o trio a BH, levou-me ao camarim, onde pude bater um rápido papo com Nash e Stills e contei a história do nome do trio - Sá, Rodrix & Guarabyra, que inspirou-se na junção de sobrenomes deles para criar o seu próprio nome. Nosso picape Pickering rodava Crosby, Stills & Nash (e depois Neil Young, que juntou-se ao trio) o dia inteiro. Nossas potentes caixas Wharfdale de concreto abalavam Ipanema inteira berrando "Marrakesh Express"  aos quatro ventos. O rock rural, em sua parte rock, deve muito a Crosby, Stills, Nash & Young. Ficam aqui então essas fotos de uma tietagem do bem...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ONOCÊONÉKOTÔ

               

                Um belo dia acordei sem saber onde estava. É isso. Pode perguntar a qualquer um de nós, artistas de estrada, que fazem às vezes vários shows seguidos, cidade após cidade, naquilo que os de língua inglesa chamam de “one night stand”, que esse um vai te repetir minha frase inicial: “um dia acordei sem saber onde estava”...
                Primeiro remexi a gaveta de cabeceira atrás de algum papel que me esclarecesse: nada. Esqueci a preguiça e andei pelo quarto procurando uma identificação do hotel. Achei uma pomposa pasta de couro com um caprichado papel de carta do “Real Palace Hotel”. Quantos “Real Palace Hotel” eu conhecia na minha vida àquela altura de mais de trinta anos de carreira? Uns cem. Pra complicar, um pequeno problema: o papel de carta só trazia mesmo logo e nome do estabelecimento. Nada de endereço e nenhum envelope esclarecedor. Telefonar pra portaria? Jamais. Haveria de haver outro jeito de descobrir meu paradeiro sem pagar esse gigantesco mico. Lembrei-me da música do Nelsinho Ângelo, com seu título em primoroso mineirês nipônico: “Onocêonékotô”. Lembrei também de Mick Jagger, que em manhã semelhante à minha – diz o folclore – abriu de golpe as cortinas da sua suíte presidencial no último andar de um luxuoso hotel paulistano e ao ver a paisagem desmesuradamente urbana da Paulicéia, berrou em desespero: “What?! Chicago? I hate Chicago!” (Quê? Chicago? Odeio Chicago!)
                Claro! Eu tinha que dar uma de Mick Jagger e abrir de golpe as cortinas da minha suíte, certamente mais modesta, mas não menos cortinada. Tinha cortina pra todo o lado, cortinas pesadas, solenes, de um dourado escuro quase principesco, cheias de laçarotes e ornatos desnecessários. Olhei de um lado pro outro: elas cercavam a suíte por três lados, deixando à mostra apenas a saída para uma saleta onde ficava a porta do banheiro. Pensei comigo que seria certamente o hotel de uma cidade de certo porte, pois apesar da decoração meio over fui verificando que a suíte tinha bons recursos: banheira de hidromassagem, chuveiro decente – sem um daqueles malditos chuveiros elétricos, que eu particularmente odeio... - e frigobar sortido, inclusive com duas garrafinhas de Chandon estrategicamente colocadas na porta, que suplicavam à la Alice no País das Maravilhas: “Beba-me, beba-me!”. Desviei o olhar e o espírito das Chandon e concentrei-me no problema presente: qual das cortinas abrir primeiro? Escolhi a da esquerda e mickjaggerianamente tentei abri-la de golpe. Inútil. Ela gemeu, sacudiu, revelou um pouco de parede e mais nada. Olhei para cima e vi o que parecia uma espécie de motorzinho junto ao trilho. O quê? Cortina elétrica? Meu Deus, onde eu estava? Boston? Roma? Campinas? Corri para a cabeceira e vi um monte daqueles controleszinhos, botõezinhos e etceteras. No canto direito, três interruptores tinham cara de cortina. Mexi num e a cortina do centro resmungou, cedeu e abriu-se lentamente, mostrando uma parede branca, muda e inerte. Comecei a pensar seriamente nas histórias de ficção científica que eu lera abusivamente pelos 70 afora. Abduzido? Mexi noutro e cortina da direita, emitindo os mesmos sons misteriosos, mostrou um basculante horroroso que dava para uma sinistrésima e apertada coluna interna de... Ventilação?! A ampla suíte agora já me parecia meio claustrofóbica. Bom, aquela terceira cortina tinha certamente que se abrir para alguma coisa, embora o silêncio ali dentro fosse total. Uma janela acústica? Qual não foi minha surpresa ao ver no quarto em frente do outro lado da minha afinal janela, separado de mim por uns cinco metros do vão livre de uma bem iluminada área interna do prédio, meu empresário, Chico Calabro, fumando placidamente um charuto. Ao abrir o janelão, senti o aroma inconfundível de um dos Romeo y Julieta que eu trouxera de Cuba para ele pouco tempo antes. Ouvindo o ruído da janela, Chico me viu e enviou-me um sorriso de Mona Lisa. Acho que as pessoas que fumam um Romeo desses tendem a sorrir daquele jeito. Tentei sorrir da mesma maneira – claro que, devido às circunstâncias, falhei – e mandei um bom dia chocho, pensando em como chegar ao assunto que mais me interessava naquela hora, ou seja, em que droga de pedaço do Brasil ou do Mundo eu estava.
-Aêêê... – foi tudo que consegui falar
- Fala Sá! Tá assim ainda, meu bom? Vamos descer em quinze minutos.
                Olhei por cima do ombro para o caos que reinava no meu pedaço. Ele continuou, empresário e produtor até a raiz dos cabelos:
- São seis horas de viagem até...
                Até... Até onde, caramba?! Não é que justamente naquela hora o telefone dele tocou e fez com que ele saísse da janela pra atender e sumisse nas profundas do quarto antes de completar a frase.
                 A coisa toda agora assumia um ar hitchcockiano e eu resolvi achar graça naquilo, já que me recusava a encarar a possibilidade de ter meia dúzia de manés me enchendo o saco no... Avião? Ônibus? Carro?!  Porque onossabiaonécotava, sacumé?... Parti pra arrumar minhas coisas e falei de mim para comigo:
- Não interessa onde estou. Estou com minha banda, meu parceiro, meu empresário, meus amigos, estou bem, minha carreira vai ótima, estamos fazendo tanto show que... Onocêonékotô!
                Aí caí numa irresistível gargalhada, lembrando do Nelsinho Ângelo me contando das circunstâncias que o tinham levado a compor aquela música. Resolvi então manter o mistério para mim mesmo, desistindo até da ideia que acabara de me ocorrer: ligar o GPS do meu N85 pra me localizar. Liguei pro celular do Chico e pedi que ele fechasse a conta pra mim. Arrumei a mala, coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume do N85, desci e me enfiei direto no ônibus que o Chico me indicou. A única coisa que eu percebi, ouvindo o português das pessoas na recepção, é que do Brasil eu não tinha saído. Sequer me esforcei para definir o sotaque.       No confortável leito do andar de baixo do ônibus, fechei as cortinas e continuei concentrado em meus fones. Acabei por dormir profundamente e fui despertado pelo Chico, chegados e já noite:
- Corre aí, sobe no quarto e toma um banho rápido que não vai dar nem pra passar o som. O show é em praça pública.
                Na correria, soube que o ônibus tivera problemas e estávamos em cima da hora. Saí direto do banho pro show. E na hora de saudar o público, que lotava a bela e arborizadíssima praça de não-sei-onde, só pude dizer um “e aí, pessoal” em vez do meu tradicional “boa nooooite, (nome da cidade)”. Qual cidade?!
                E o melhor, ou pior, ou mais estranho de tudo é que eu não consigo me lembrar de onde foi mesmo que isso aconteceu... Onocêonécotive!

sábado, 21 de janeiro de 2012

HAIS-NÃO-KAIS

1.Por sua causa,
   Foi preciso endurecer
   E perder a ternura até mais não poder

2. Quem deve
    Não treme:
    Geme.

3. Fora com tudo
      Que atrasa o fim do mudo


  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIDA DE ARTISTA

   
OS PRÉ-TUDO

                Todos os que começam na música são pré: pré-instrumentistas, pré- compositores, pré-cantores, enfim, pré-tudo. E essa fase pré é de doer, na paciência e no ouvido dos outros, já que nem Mozart nasceu sabendo. Não me façam pagar aqui o mico de mostrar pra vocês as minhas primeiras letras, ou as minhas primeiras melodias: só meus pais gostavam. Não só gostavam como também insistiam para que eu as mostrasse aos seus amigos, Era de dar pena ver o esforço que precedia os aplausos e sorrisos amarelos... Mas não desanimei: consegui finalmente compor umas coisinhas aceitáveis, quer dizer, aceitáveis dentro da minha tchurma adolescente, que tentava também achar seus caminhos musicais, fossem eles rumo ao palco ou à platéia e lá pelos dezessete já me achava o máximo porque ganhava as menininhas. Só depois de percorrer mais um longo caminho até a completa profissionalização é que percebi o quão mínimo eu tinha sido. Mas como ser pós sem ser pré? Entendam bem que não estou desvalorizando os pré, apenas constato a verdade: ouvir ou trabalhar com um pré quando você já é pós exige uma poderosa dose de humildade. Você só chega à perfeição de aturar um pré quando consegue ser um cara humilde – ou falso – o suficiente para aplaudir e sorrir com o mesmo amarelão físico e mental com que foi recebido nos seus tempos - pré. A vida é essa, receber um pouco mais e dar um pouco menos.
                Repare nas festinhas e reuniões adolescentes: há sempre um ou mais prés zumbindo por ali, aguardando ansiosos a hora da canja, quando poderão mostrar que ainda não sabem o que pensam saber. A coisa começa na hora da afinação: os prés parecem desconhecer a existência dos afinadores eletrônicos e insistem em confiar nos seus ouvidos. Aí, já viu... Fora isso, os prés tendem também a confundir incompetência com criatividade e lascam os mais esotéricos solos do planeta, justamente na hora em que o pré-cantor está quase afinando. Mas repare também nos amigos orgulhosos e nas (os) namoradas (os) dos prés, de olhos brilhantes e/ou apaixonados, marcando com fé o inevitável atravessado do inexperiente pré-baterista: eles são os motores daqueles teco-tecos que podem se transformar em jatos de última geração, movidos por sua persistência e pelo entusiasmo dos companheiros. Ou, se quiser um contato mais íntimo com os prés, dê uma zapeada no seu rádio: você vai ouvir alguns dos pré-sortudos que mesmo sem nunca sair dessa categoria ainda conseguem ganhar um troco com música, eh, eh, eh...
                Nunca fui arrogante com prés, a não ser com aqueles cheios de si e vazios de talento o suficiente para me irritar. Lembro-me de um diálogo numa festa oferecida a nós depois de um show que resultou ser apenas uma armação para que tivéssemos que ouvir o filho do dono da casa, playboyzinho metido e mimado. Cansado pela sucessão de viagens e já meio tocado pelo excelente scotch do patriarca, fui obrigado a escutar meia hora de lenga-lenga pseudo intelectual do mané (os Manoéis que me perdoem) em questão, que fechou o discurso com esta pérola:
- O problema é que eu sou a verdade e as pessoas ainda não aprenderam a me ouvir.
                Virou-se para a pequena platéia de puxa-sacos e parasitas que o aplaudira depois da última “música” que ele perpetrara na maior cara-de-pau e completou, tirando o cabelo da testa em falso fastio de pré-poeta:
- Tem que ser especial pra entender a verdade quando ela é dita.
                Depois de brevíssimos segundos de incredulidade geral em que nem mesmo os mais chegados a ele acreditaram no que ouviam, retomei o sangue frio, deixei o uísque na mesinha ao lado, olhei bem dentro dos olhos da figura e falei a única coisa que me veio à cabeça, um bordão de humorista de TV que eu ouvira na noite anterior:
- Então me engana que eu gosto.
                Depois de outro segundo de absoluto silencio, a sala rompeu numa gargalhada uníssona. Aproveitei o momento de sucesso e fui saindo de fininho (ou de “grossinho”?), acompanhado pela minha fiel entourage. Fiquei surpreso quando nos percebi seguidos por mais de metade da sala, o que fez com que eu promovesse os ex-puxa-sacos-parasitas a “Gente Antenada”. Por uma estranha coincidência, nunca mais fomos chamados de volta àquela cidade. O cara deve ser dono de lá até hoje, o que significa que o Brasil perdeu um péssimo músico, mas certamente ganhou um político pior ainda.
                Por outro lado, assisti à ascensão de prés que eu jamais acreditaria que viessem dar em alguma coisa. Por exemplo, eu freqüentava, já quase pós-pré, mas ainda bem pré-pós, a casa tijucana do multi-instrumentista Helio Celso, um músico genial, injustamente desconhecido do grande público, mas referência em nossa geração. E lá ia sempre um baixista gordinho de óculos, que falava muito e – na época - tocava pouco. Nós o chamávamos de Luiz “Bicão”. “Bico de Luz” em gíria de músico é aquele que está “por fora”, quer dizer, não entende nada do ramo. Pois bem, Luiz “Bicão” estudou, batalhou, escutou e acabou por transformar-se no genial Luizão Maia, um dos baixistas mais requisitados e de maior personalidade da música brasileira, parceiro indispensável de gente como Chico Buarque, Gil, Gal, Ellis, Paulinho da Viola e inúmeros outros nacionais e internacionais. Meu querido amigo Luizão, com quem dei muita risada lembrando aqueles árduos tempos tijucanos, partiu precocemente, mas deixou no seu instrumento herdeiros do naipe de Artur Maia, seu sobrinho e Zé Luís Maia, seu filho.
                Há então, prés e prés. Mas se você é pré, siga o conselho de um que já foi e sofreu muito por isso: estude à vera, ouça de tudo, pratique demais e antes de qualquer coisa saiba  rir de si mesmo e aprender com os que riem de você. Muita calma nessa hora, quando a autocrítica lúcida é essencial. Seja um pré decente para ser um pós consciente, porque um pós consciente pode ajudar muitos prés decentes. Entendeu?
                Se não entendeu, então nem se meta a pré!


minha coluna "Vida de Artista" sai todo mês na revista BackStage

segunda-feira, 18 de julho de 2011

VIDA DE ARTISTA - minha coluna na BackStage

NANA E O ÚLTIMO DESEJO

Estou no Teatro Municipal do Rio, concorrendo ao 22o. Premio da Música Brasileira 2011, indicados que fomos (Sá, Rodrix & Guarabyra) na categoria de melhor grupo. Por sinal, já perdemos essa: Os Cariocas levaram o troféu, o que significa para nós uma derrota honrosa. Mas o espetáculo está valendo a viagem: o homenageado é Noel Rosa e começamos com Paulinho da Viola e sua filha Beatriz Faria, ele enfeitiçando a Vila com aquela indizível elegância de sempre, e depois, com a filha à altura do pai (o que é muito além do que poderia sonhar uma novata, mesmo contando com a genética), suingando o “Palpite Infeliz”. E logo em seguida, vejam só, “Feitio de Oração” com Dori Caymmi! É muito? Não. Porque agora Dori chamou Nana. E ela começou a cantar “Último Desejo”.

“Nosso amor, que eu não esqueço

E que teve seu começo

Numa festa de São João...”


Todos sabemos que Nana Caymmi é uma cantora extraordinária, timbre, técnica e emoção unidos numa combinação rara. Mas tenho a impressão de que hoje ela resolveu superar-se. A pequena - mas afiadíssima! - orquestra e o arranjo impecável ajudam Nana a navegar pelos versos únicos de Noel. Lá vai ela:

“...morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar e sem violão...”

Se houvesse uma mosca voando no teatro, ela seria ouvida. O silêncio da platéia, sem um sussurro sequer naquele Municipal lotado, é quase tão deslumbrante quanto a Voz da Cantora.

“Perto de você me calo,

tudo penso, nada falo

Tenho medo de chorar...”

Quem está ficando com medo de chorar sou eu. Nos anos 50, mal passada década e meia da morte de Noel, eu era criança, nascido e crescendo na minha Vila Isabel. Comprava meus brinquedos nas Lojas Trindade, meus remédios chegavam da Farmácia Montanha, a comida vinha do então Armazém Sendas, minha escola era a República Argentina e eu brincava nas matinês carnavalescas da Associação Atlética Vila Isabel, da qual, aliás, meu pai era presidente de vez em quando. Sylvio Sá conseguia juntar seu trabalho duro e burocrático num cartório do Centro às rodas boêmias da Vila. Volta e meia chegava do batente já com a turma armada para a seresta noturna:”hoje vai ter, dizia ele. E à noite, na varanda da Major Barros 32 apartamento 201, os violões e cavaquinhos atacavam com tudo, varando a noite. Minha família toda cantava: pai, mãe, irmã mais velha, cunhado, primas... até eu tinha minha chance de subir na cadeirinha e cantar... adivinha qual era minha preferida? Isso mesmo: “Último Desejo”.

“Nunca mais quero teu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar”

A essa altura aquela seletíssima platéia de músicos, compositores, maestros, arranjadores, instrumentistas, sertanejos, sambistas, roqueiros, enfim, todos os eiros, istas e ores que estavam ali a bordo de suas partituras mais ou menos sofisticadas, dos mais populares aos mais – digamos assim – sofisticados, estavam de bocas e corações abertos, mesmerizados pela espantosamente emocionante interpretação de Nana. Não ousávamos olhar uns para os outros, pois descobriríamos ali mesmo nossos segredos mais escondidos, desencavados por aquela tempestade de sentimentos que se projetava do palco. A essa altura Nana não era mais Nana, era uma espécie de médium que “recebia” Noel...

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não

Diga sempre que me adora, que você lamenta e chora

A nossa separação”

Quem, senão Noel, teria a sensibilidade de pedir à ex-amada este último desejo? Lamentar o bem vivido aos amigos, para que mais amigos fossem e o mal vivido aos inimigos, para que estes mais se afastassem...

“E às pessoas que detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é um botequim”

Nana está terminando. Seu gestual é simples, despojado, comandado apenas pelo sentimento, sem nenhuma ambição de forçar a barra, sem nenhum dramatismo extrapolado. Ela sabe mostrar a Lágrima Interior, aquela que aparece sem chorar. Sua voz grave e única ressoa por um Municipal em êxtase:

“Que eu arruinei sua vida

E não mereço a comida

Que você pagou pra mim”

O final é simples, sem nenhum rebuscamento. Nana se afasta do microfone. Depois de um milissegundo de “o que foi isso?!” o Teatro Municipal – platéia, balcões e torrinha – simplesmente explode, aos urros e aplausos. Levanto-me da poltrona, ejetado por aquela força emocional que só nos atinge em ocasiões muito, muito, especiais e urro junto com o resto do público. Todo mundo está de pé, todos estão de acordo comigo: nunca existiu um “Último Desejo” igual aquele que Nana nos mostrou.
Só não chorei ali por idiota que sou. Mas prometo aqui, de público, que no meu próximo encontro com Nana Caymmi – tomara que seja logo – vou abraçá-la com todo o meu carinho de amigo e chorar mansamente em seu ombro. Ela certamente vai me perguntar por que e eu vou dizer a ela que choro por aquelas noites de música em Vila Isabel, pelo sorriso feliz de meu ido pai, pela varanda tranqüila da Major Barros, pelas vozes que não posso mais ouvir, pela alegria de poder tocar, cantar e compor e pelo jovem de vinte e seis anos que nos proporcionou – através dela – aqueles três minutos e pouco essenciais para qualquer ser que considere a música uma parte importante de sua vida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"AMANHÃ" : a crítica se manifestou sobre o último CD de Sá, Rodrix & Guarabyra

" 'Amanhã', produzido por Tavito, é uma bonita última prova de uma reunião de ótimos artistas e irmãos de vida e música"
O Globo (RJ) / João Pimentel

" O álbum 'Amanhã' se destaca por trazer o trio na velha e boa forma de antes. Com letras diferenciadas, melodias pegajosas e arranjos vocais bem feitos. O material traz a mesma alegria presente nos discos do início de sua carreira"
A Gazeta (ES) / Vitor Ferri


"Nos delirantes versos do blues Sonho Triste em Copacabana, fica claro que as inéditas foram compostas e gravadas com fidelidade à sonoridade e à ideologia do trio"
Isto É Gente / Mauro Ferreira


....O mérito mais evidente do álbum é a falta de pudor em ser popular, em que se pese a sofisticação dos arranjos, que muitas vezes remetem às experiências do início da carreira".
Jornal do Brasil (RJ) / Nelson Gobbi


" Amanhã consegue ser um disco atual, mesmo conservando uma sonoridade do passado e um jeito meio bicho-grilo de olhar a urbanidade e natureza".
Diário do Pará / Edgar Augusto


"Neste novo projeto estão presentes o timbre inconfundível de Rodrix, as cordas de aço de Sá, um delicioso clima lisérgico-hippie, além dos vocais já tão familiares dos discos anteriores".
Rolling Stone / Antonio do Amaral Rocha

EM TRÊS PONTAS...

Estávamos lá no Festival Musica do Mundo, promovido por Milton Nascimento e Wagner Tiso. E no camarim nos encontramos com Celsinho Blues Boy e Mallu Magalhães, numa foto da minha mulher, Verlaine de Sá.

sábado, 13 de março de 2010

SÁ, RODRIX & GUARABYRA: NOVO CD "AMANHÃ" NAS LOJAS

Oi, pessoal! vão desculpando a longa ausência, ocupado que estive - e ainda estou - com o lançamento do CD "Amanhã", o - infelizmente - último do trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Seguimos em dupla, com saudades mas dispostos a perpetuar a lembrança do nosso querido Zé Rodrix em nossos shows, corações e mentes. Aos que perguntaram: "Amanhã" já chegou em lojas e sites. Mais fácil na Leitura, na Saraiva, na Cultura e nas Americanas.E apareçam no show de lançamento em SP, no SESC Vila Mariana, 3 e 4 de abril próximos.Meu abraço e carinho a todos vocês que me seguem.


A Vanessa, de Avaré, é fã mesmo... tatuou o logo da dupla na nuca!
O logo, sem nenhuma falsa modéstia, é uma pequena obra prima do designer Gernot Stiegler, que o fez pro nosso Lp de 1979, "Quatro". A capa do "Quatro" ganhou vários prêmios, com uma linda foto de Ella Durst e layout do Gernot.
Viva o Gernot. Viva a Ella. E viva a Vanessa, que "sofreu" por nós!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

COM O LULA NO RIO...


Fizemos uma participação no show de nosso amigo Lula Ribeiro, no lindíssimo espaço cultural do TRE, no Rio. Fora o prazer de tocar com Lula, ainda tivemos a alegria de reencontrar velhos amigos na banda: o guitarrista Perinho Santana, o baixista Artur Maia e o percussionista Marco Lobo. Aí na foto, da esquerda pra direita, Perinho, Artur, Guarabyra, eu, Lula e Marco.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CIDADÃO HONORÁRIO...

Em 10 de novembro passado recebi da Câmara Municipal o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte, por iniciativa do vereador Anselmo José Domingos, seguindo um desejo antigo de meu amigo e parceiro Tadeu Franco. Mais uma vez a cidade que escolhi pra morar abre seus braços para mim. BH não se cansa de me acolher e eu não me canso de cada vez mais gostar de morar aqui. Assim viro oficialmente o "mineiroca" que eu já era de coração!